Vida real: como vencer o câncer com garra, fé e
trabalho
Conheci o Victor Siaulys quando fizemos um retiro espiritual em seu belo sítio de Mairiporã, faz muitos anos, nem lembro quantos. Grandalhão, de voz grave, é um desses tipos que você vê uma vez e não esquece. Fica amigo dele na hora, para sempre. Aonde chega, chama a atenção, não só pelo tamanho, mas pelas coisas que conta, coisas da vida, de uma vida que para ele nunca foi fácil. Já passou por muitas e boas, e nunca entregou os pontos.
Victor é um dos donos do maior laboratório farmacêutico nacional, o Aché, mas ficou mais conhecido por um caminhão de projetos sociais que desenvolve há muitos anos, com garra, fé e trabalho.
Faz um ano e meio descobriu que estava com câncer. Como sempre, foi à luta. Por isso, fiquei muito feliz na manhã desta segunda-feira quando abri o computador e encontrei uma carta dele cheia de entusiasmo e muitos planos.
Gostaria de partilhar esta bela lição de vida com os leitores e, por isso, passo a palavra diretamente a ele. Quem quiser falar com o Victor para saber mais da sua trajetória, o e-mail dele está no texto abaixo.
Diante deste testemunho de vida, qualquer coisa a mais que eu escrever é supérfluo, vai ser bobagem diante da grandeza da carta que ele me enviou com o título Conversando entre amigos:
Por : Victor
“Como você deve saber, estou vivendo um momento especial de minha vida, desde a descoberta em 26 de novembro de 2006, que havia sido contemplado com uma LMA – Leucemia Mielóide Aguda. Para a imensa maioria das pessoas isto equivale a uma sentença de morte a curto prazo.
Como sempre, um incidente imprevisto deste tipo dá origem a muitas especulações, quase sempre pessimistas, cercadas de sentimentos de compaixão e piedade pela “tragédia pessoal”. É por esta razão que me dirijo a você e às centenas de amigos meus que têm demonstrado carinho e interesse pelo meu carma. Ao longo da vida, tenho lutado e vencido três tipos diferentes de câncer: há mais de 30 anos um de tiróide com a sua remoção e substituição pelo Tetroid/Levoid; um de pele removido em consultório há cerca de 10 anos; um de próstata removido há 6 anos, dos quais posso me considerar curado. Como você percebe, não vou me render facilmente a este novo desafio.
A longa estadia no Hospital Albert Einstein me proporcionou tempo para terminar o sonho de um livro a ser publicado nos próximos dias e uma reflexão sobre a minha vida pessoal e profissional que em outras circunstâncias eu não conseguiria. Em retiro forçado no hospital, me dei conta que tinha muito mais amigos do que imaginava. É por isso que como amigos e companheiros de trabalho que eu gostaria de compartilhar a experiência que estou vivendo. Continuo participando ativamente do Conselho de Administração do Aché e do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República em Brasília, no Palácio do Planalto. Internado, montei um hospital-office, sempre acompanhado de secretárias, filhas, sobrinhas plugadas na Internet, e fui realizando diversas reuniões ou cafés da manhã no próprio local. Nos períodos de retiro no meu Santuário em Mairiporã, criei uma farmácia de manipulação e uma pequena fábrica de cosméticos, a Plantarium, como extensão da farmácia. Das reuniões freqüentes com cientistas amigos como o Dr. Luis Pianowski, Prof. Calixto de Santa Catarina, Prof. Odorico do Ceará, meu alter ego médico Dr. Dagoberto Brandão, e um jovem promissor cientista Dr. Paulo Leal criamos uma micro-empresa, a PI – Product Innovation, visando criar e desenvolver produtos para o Aché.
Nos associamos com um excelente grupo ligado à Universidade Federal de Maringá e uma Universidade particular de São José da Boa Vista num projeto de plantio orgânico e extração a Organessência para atender demandas de plantas para os projetos de nossa empresa. O projeto foi aprovado e será financiado pelo Ministério de Ciência e Tecnologia com 6 milhões de reais. Num outro desatino que só a “suposta tragédia” permitiu, montamos uma pequena unidade de biotecnologia em co-participação com duas unidades da USP – o Hemocentro de Ribeirão Preto – referência nacional e internacional em hematologia e o IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas da Escola Politécnica da USP.
Nossa equipe capitaneada pela bióloga celular Dra. Fernanda Piza, com a consultoria da Dra. Ana Lúcia Assad, da Unicamp, faz a ponte entre os dois centros universitários. Mais uma vez fomos brindados com financiamento de 3 milhões de reais, para tentar produzir por via biotecnológica a produção do chamado Fator VIII para o tratamento de hemofilia, com o qual nosso país gasta cerca de 80 milhões de dólares/ano, comprando no exterior produto fabricado com sangue humano (quem sabe de doadores brasileiros), com todos os seus riscos.
Somente através da biotecnologia sua produção poderá ser absolutamente segura e muito mais barata. Se o projeto der certo, em pelo menos 2 anos poderíamos iniciar os trabalhos clínicos. A ciência brasileira dará um salto qualitativo enorme e uma repercussão extraordinária para o nosso país.
Tudo isto demonstra que continuamos trabalhando no curto, médio e longo prazo, qualquer que seja o tempo de nossa sobrevivência.
Recentemente fui convidado para dar um depoimento pessoal na VI Conferência Internacional de Onco-Hematologia. Como quase todos os meus amigos não poderão estar no dia lá no Rio de Janeiro, decidi compartilhar com vocês o texto da minha palestra/depoimento: que conta o que aprendi com a Leucemia. Não para olhá-la como o fantasma da morte mas como reaprender a viver.
Dezessete anos de Laramara com cerca de 8.000 famílias e mais de 40 anos de Aché – hoje com cerca de 3.500 amigos e admiradores constituem o capital mais rico que acumulei em minha vida. Se você conhece alguém que, de alguma forma, participou de nossa jornada, repasse esta nossa mensagem. Ela pode formar uma corrente de fé e confiança que nos una e nos fortaleça.
Espero voltar em breve com notícias mais concretas do meu livro: Mercenário ou Missionário?
Se por qualquer razão você quiser falar comigo, faça-o, por favor, através do meu e-mail victorsiaulys@uol.com.br Como você vê, a desgraça traz consigo a sua graça – entenda-se dádiva de podermos, de alguma forma nos mantermos em contato.
Na segunda parte da carta enviada por Victor Siaulys, que descobriu há um ano e meio que estava com câncer, ele fala sobre dez lições aprendidas com a leucemia. Victor é um dos donos do maior laboratório farmacêutico nacional, o Aché, mas ficou mais conhecido por um caminhão de projetos sociais que desenvolve há muitos anos, com garra, fé e trabalho. Veja os dez pontos destacados por Siaulys:
Dez lições aprendidas com a1. O JOGO DA VIDA
leucemia
Nesses últimos tempos, em decorrência do estado físico e do tratamento a que venho sendo submetido, meu esporte favorito tem sido o jogo de cartas. Ele tem alguns méritos, como o de ampliar o meu convívio familiar e contar com a presença indispensável dos amigos. Além do mais, conto com a aprovação total dos seis cães que moram conosco no apartamento urbano, dos onze cães do refúgio na praia e dos oito que coabitam nossa casa no campo.
O jogo – único que aprendi, por repulsa e temor aos jogos de azar, é o velho e prosaico Buraco. Embora seja um jogo de azar, jamais envolve dinheiro e tão somente zombarias ou deboches. Quem o pratica, sabe que há sempre uma pequena lógica no número de cartas e naipes, o que pode orientar a sua forma de jogar e competir com o azar. Os jogadores em geral têm uma verdadeira obsessão em se apoderar o mais rapidamente do “morto” (duas pilhas com onze cartas).
Neste tipo de jogo, conseguir “comprar” um deles é sempre determinante no resultado da partida. Você passa a contar com onze cartas novas que foram sorteadas em seqüência no conjunto inicial. Com elas nas mãos você pode, de certa forma, antever o desenlace da partida.
Lição aprendida no jogo de cartas: a cada um de nós, no jogo ou na vida, qualquer que seja o momento, cabe decidir de que forma iremos jogar com as cartas que nos foram dadas pelo destino. Elas não podem ser mudadas, temos de tirar partido daquilo que temos em mãos.
2. A CONSCIÊNCIA DA MORTE
Embora não seja tarefa das mais agradáveis, é sempre bom falar sobre a morte, para podermos entender melhor a nossa vida. E quando nos sentirmos, pelo avançar da idade, que o nosso tempo regulamentar vai se aproximando do fim, avaliamos se a nossa vida realmente tem um sentido.
Basta uma pequena revisão de tudo aquilo que assistimos: cinema, televisão, teatro, novela o tema da morte está presente como parte da vida.
Quando perguntamos a alguma pessoa: o que é mais importante para você? Seu trabalho ou sua família? Quanto mais “workaholic” ele for, mais cínica e hipocritamente responderá que é sua família. Para a grande maioria dos executivos com os quais tenho convivido, isto não é verdade. Haja visto o número impressionante de troca de casais. “Faço tudo isto pelos meus filhos”... mentira! O fazem pela busca de “status” diante dos colegas e da família e da coleção infinita de bens materiais. Desperdiçam uma vida, que para todos sempre é tão curta.
A vida precisa ser vivida com integridade e plena consciência de que somos finitos e por isso temos que vivê-la com intensidade e não em sua duração.
É da poetisa Cora Coralina a poesia pedagógica:
“Não sei... Se a vida é curta... Não sei.. Não sei... Se a vida é curta ou longa demais para nós. Mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas”.
Podemos realizar toda a nossa lista de sonhos de consumo e mesmo assim continuar a nos sentir vazios. Eles até podem nos fazer sentir menos infelizes momentaneamente, mas não podem nos tornar felizes por muito tempo.
3. POR QUE ISTO ACONTECEU COMIGO?
Há algum tempo, numa entrevista com uma repórter, ela me perguntava como na minha idade eu encarava a morte. Lembro que isto ocorreu muito antes do meu diagnóstico. Respondi que o fazia com a mais absoluta naturalidade. Além do que, morrer, como todos nós vamos um dia, não dói. O que dói é ter consciência no final da vida de não ter tido uma vida bem vivida. Vivi intensamente a minha. Ela é a minha obra. Não tenho mais nada a provar nem a mim, nem a ninguém.
O escritor argentino, Jorge Luis Borges, nos disse que a vida é feita de momentos. Se assim é, temos que viver intensamente cada momento. Celebrar a vida qualquer que seja o motivo, nem que seja a própria dádiva de estarmos vivos mais um dia.
Vivemos com muita pressa, sempre no piloto automático, e muito distraídos, para poder observar as pequenas coisas do nosso cotidiano.
Muitas vezes precisamos de um sinal de alarme para desligar o piloto automático e assumirmos a direção de nossas vidas. Uma perda, um trauma, uma doença, podem ser o sinal de alarme que nos permita viver melhor. Ou quem sabe até, reaprender a viver.
O sinal de alarme é a carta do baralho indesejada em nossas mãos que pode, à primeira vista, parecer ingrata e dolorosa, mas feliz ou infelizmente ela faz parte do jogo de nossa vida. E é com ela que temos de jogar.
Não podemos descartá-la, pois ela é parte do nosso sagrado programa genético. Nascemos com nosso gen. Ele é imortal. Nós, não. É ele quem define o nosso destino.
A sabedoria oriental nos ensina que todo infortúnio é colocado na vida por uma providência divina. Para nos mostrar como somos vulneráveis. Cabe a nós aprender a transformar a tragédia em algo de positivo para nossas vidas. Não podemos jamais olhá-la apenas pelo lado pessimista. Precisamos aprender com Poliana, personagem de histórias infantis, o lado bom das coisas.
Além do mais, Deus nunca coloca em nossos ombros uma carga maior do que aquela que podemos suportar. 4. A VIDA NO AMBULATÓRIO
Por algumas semanas, tive que freqüentar o ambulatório de oncologia do hospital. Meu relacionamento com a recepcionista e a atendente, já nos primeiros minutos, quebrava o gelo da ante-sala de atendimentos.
Tudo era levado na “gozação” seja pedindo para que fosse trocada a cor da minha pulseira para combinar com a cor dos meus olhos ou agradecendo a gentil voluntária que me oferecia abono no estacionamento, dizendo a ela que eu agradecia, mas tinha vindo de metrô.
Entrando na área de atendimento, o reboliço que eu promovia era no mínimo inusitado, seja levando bombons ou pão de queijo, seja inesperadamente cantando e beijando todas as enfermeiras. Alguma coisa eu precisava mudar naquele asséptico, comportado e discreto ambiente de tratamento de portadores de câncer. Com isso, a cada retorno, eu me sentia estar com pessoas de minha família.
Sentado em minha baia, aguardando escorrer, gota a gota, a bolsa de plaquetas ou o medicamento conectado no meu cateter, eu procurava observar o comportamento daqueles que circulavam pela Via Dolorosa do ambulatório. Até fui descoberto por uma vizinha de condomínio na praia, que não consegui reconhecer de imediato, tal o seu estado debilitante; enfermeira casada com um médico e com estória pregressa de câncer de pulmão e algumas metástases. Soube que ela continuava fumando, em lento suicídio. O que ocorreu rapidamente como soube. Como sempre, cabe a cada um de nós definir o seu destino.
Numa das baias vizinhas, nos encontramos algumas vezes com um senhor que consumia seu tempo queixando-se amargamente de tudo: do atendimento, da sua família e em particular de seu filho, pelo abandono que a que tinha sido relegado. Pelo que sabemos, tinha sido uma pessoa muito rica e poderosa, mas que construíra uma vida familiar desastrada.
Um certo dia, minha filha que me acompanhava, dirigiu-se à sua baia e ofereceu-lhe alguns chocolates. A reação foi curta e rápida: era tudo o que ele não podia imaginar naquele lugar em que vinha contando as horas para morrer. A reação foi de choro e comoção.
Lição aprendida: morrer não dói. A própria vida vai nos ensinando a aceitá-la como inevitável. O que dói é viver uma vida infeliz. Abandonado pela família e pelos amigos, o ser humano vai perdendo progressivamente o amor pela vida.
5. O JOGO DO CONTENTE
A escritora americana Eleanor Porter criou, no início do século passado, a personagem Poliana, uma criança que buscava de todas as formas ensinar a todo mundo o seu “jogo do contente”.
Quando passamos a valorizar cada momento de nossa existência e passamos a jogar o “jogo do contente”, da menina Poliana nossa vida passa a ter um significado diferente. Nos pequenos gestos de bondade e de carinho com as enfermeiras, com os atendentes, com o pessoal da limpeza, com a copeira que descobrimos ser o dia do seu aniversário e lhe trazer um pequeno agrado, a vida fica muito mais fácil de ser assimilada ainda que num quarto de hospital.
Devemos lembrar que aqueles sempre solícitos atendentes passam suas 8 a 12 horas de trabalho ouvindo queixas de dores e desconforto. Eles precisam de palavras de carinho, precisamos abrir seus sorrisos, aquecer seus corações. Bastam apenas algumas gotas de Poliana para deixar de encarar a estadia no hospital não como uma tragédia e sim como uma rica experiência humana.
A experiência de compartilhar o rico e variado café da manhã, trazido por minha sobrinha ainda com cheiro de padaria, com a enfermagem e com dois companheiros de quarto: um jovem adolescente, a quem ofereci um blusão de piloto da Stock Car, e com o pão doce compartilhado com o Artur, de 2 anos de idade, proveniente de uma das áreas mais pobres da nossa cidade, são todos pequenos gestos que vão valorizando o “jogo do contente” num ambiente de hospital.
Como dizia Shakespeare, nossa vida é um grande teatro onde todos nós somos atores: pacientes, atendentes, enfermeiros e médicos. A cada novo dia quando entramos no hospital, novas dúvidas e incertezas obstruem nosso caminho. Aprender a superá-las é sempre um processo lento, difícil, porque não dizer assustador. Mas só aprendendo a superá-las vamos descobrir o quanto nos transformamos e como renascemos mais fortes a cada nova internação, onde a vida acaba e recomeça a cada dia.
A vida é assim mesmo. Por mais executivos e empreendedores que sejamos, não dá para planejar tudo. Os inesperados fazem parte do nosso trajeto e esperam de nós uma resposta.
Os filósofos gregos estóicos diziam que em nossa vida há dois tipos de acontecimentos: os que dependem e os que não dependem de nós. Aqueles que são de nossa responsabilidade, temos que enfrentar. Já os incontroláveis, não adianta lamentar ou remoer. Isso não quer dizer se conformar, se render. É do filósofo alemão Nietzsche a célebre frase “o que não nos mata, nos fortalece.” Em outras palavras, o que nos derruba é também o que nos dá força para levantar.
6. CUIDADO COM OS PESSIMISTAS
Vivemos sempre rodeados por espíritos catastrofistas que muito concorrem para quebrar as nossas resistências. É uma tendência quase natural do ser humano: assimilar os incidentes de nossas vidas pelo ângulo da desgraça e da infelicidade que vivemos. Em casa, no trabalho, no clube, vivemos rodeados de pessoas amarguradas e infelizes cuja vida parece ter perdido seu sentido. Claro está, que esse desencanto encurta a nossa existência.
Quando o nosso grande ex-jogador e técnico de vôlei, Renan descobriu que seu filho Gianluca, com dois aninhos, tinha leucemia linfóide aguda, pensou: “acabou a minha vida; ele não tem cura. Olhávamos para ele brincando e chorávamos por dentro. Mas superamos a nossa tragédia. Hoje, com 14 anos, tem uma energia fantástica. Uniu cada vez mais a família”. Quando você quer realmente, vai atrás e rompe barreiras.
Não podemos nos esquecer da lição que nos foi deixada por Helen Keller que, não obstante ser portadora de surdo-cegueira, tornou-se uma das mulheres mais admiradas dos Estados Unidos: “nossa vida tanto pode ser uma tragédia, como uma gloriosa transformação. Não existem barreiras que os seres humanos não possam superar”.
Quando os médicos disseram à Mara Gabrilli, vereadora, tetraplégica, após o acidente de carro com seu namorado, que ela tinha 1% de chance de voltar a andar, sua resposta foi: “1% não é zero. Com esta determinação, ela propôs criar uma ONG para portadores de lesão medular, que deu um novo sentido à sua vida. Abriu suas portas para a política, assumindo em 2005 a Secretaria da Pessoa com Deficiência da Prefeitura de São Paulo, e em 2007 tornar-se-ia vereadora. Lição aprendida: a vida acaba e começa todos os dias. Para ela, o fim era o começo. Sobrevivendo, aprendeu que ainda tinha muito a fazer. Algo que a transformasse e ajudasse a transformar outras vidas.
Se colocarmos em dúvida a nossa mais remota possibilidade de cura, corremos o risco de cair no desânimo e na depressão. Aí as coisas vão ficando cada vez mais difíceis. Superar o descrédito, não se deixando abater, fazendo com que a força do nosso pensamento positivo fortaleça o nosso corpo. Aumente a nossa confiança em nós mesmos; só pode melhorar as nossas vidas, tornar cada vez menores os nossos problemas e maior a nossa felicidade.
7. A ENERGIA VITAL
Se na minúscula semente do ipê existe uma energia potencial capaz de transformá-la numa árvore frondosa, por que no interior do ser humano não existiria uma força interna, semelhante, pronta a se manifestar? Claro que ela existe! Ela se expressa quando de nossa ação corporal na forma de energia física; ela se expressa na nossa sexualidade na forma de energia sexual e nos nossos pensamentos na forma de energia mental.
É esta energia que nos alimenta de esperança, de amor, de tranqüilidade e ânimo para a luta diária. Sua manifestação atinge primeiro a quem a está gerando, mas propaga-se pelo espaço atingindo as pessoas que estão ao seu redor. Cabe apenas a nós gerar e disseminar essas vibrações positivas para todo o nosso nó de relações: na família, no trabalho ou na comunidade onde vivemos. Qualquer um de nós é capaz de emitir uma energia vital: otimista, alegre, confiante ou ainda até pessimista quando vemos tudo pelo seu lado negativo.
É esta geração constante de energia emitida de forma positiva ou negativa que acaba por caracterizar a nossa personalidade.
Em resumo: se conseguirmos controlar nossos pensamentos de forma positiva, mudaremos por certo o nosso modo de ser, e de encarar as dissonâncias da vida.
Às vezes, um câncer é o lugar onde encontramos a vida pela primeira vez. Ele pode nos trazer uma sabedoria capaz de nos fazer viver melhor e ter uma visão mais verdadeira de nós mesmos e da vida. O período de crise nos obriga a rever a nossa vida ao mesmo tempo em que nos liberta de preconceitos que obstruíam nossos objetivos e nos impediam de nos dedicarmos a eles. A crise abre os nossos olhos para descobrir a coragem, a força, a fé, o desejo de viver e o poder do pensamento positivo.
Lembramos que a vida nos oferece de graça o precioso dom de viver a cada minuto, hora e dia de nossa existência. Cabe a nós explorar essa energia inata.
O exemplo daquele americano, seriamente atingido por um câncer terminal, exibido no Youtube e na televisão, é por demais emblemático. Em seu depoimento ele nos conta que a cada beijo rotineiro em seus filhos ou em sua esposa ele se despede calado, mas valorizando intimamente cada segundo de vida, que ainda lhe tenha sido concedido.
Fortalecer a vida é obra de seres humanos muito especiais. Ao mesmo tempo em que o fazemos, nossa vida vai sendo enriquecida ao descobrir o quanto os outros precisam de nós. O ser humano precisa do outro para se revelar! E isto somente ocorre através da maneira pela qual conseguimos nos relacionar com os outros. Nenhum ser humano sozinho, isolado, é um ser humano. Precisamos do outro desde o nosso nascimento até o último suspiro.
8. A VIAGEM NÃO PROGRAMADA
Uma das minhas viagens mais recentes, que eu considero uma real descoberta, foi à inesquecível cidade de Jerusalém. Ela tinha sido motivada por uma ligação inesperada no celular do meu motorista, por alguém à minha procura. Como não uso celular (para não incomodar e não ser incomodado), as pessoas com as quais convivo, sabendo que se trata de uma ligação importante, o fazem indiretamente através do meu condutor. O chamado era do meu bom amigo judeu, Dr.José Goldenberg. Estava de fronte ao Muro das Lamentações e lembrara de fazer uma oração pela minha recuperação.
Uma semana depois, lá estava eu e minha mulher na cidade sagrada. Durante o trajeto pela cidade, uma parada obrigatória foi no, assim chamado, Jardim das Oliveiras. Como não sou muito apegado a imagens sacras, aproveitei a curta estadia no templo, curtindo alguns minutos do sagrado silêncio de que dispunha. Sentado, tranqüilo, sereno, fui surpreendido por uma reação curiosa no meu corpo. Certamente o silêncio e o ambiente foram os agentes contribuintes ou causadores. Inesperadamente, sem que eu estivesse orando, remoendo idéias ou triste por qualquer razão, uma cadeia de lágrimas como um colar de pérolas foi se desfazendo no meu rosto, sem nenhuma explicação lógica.
De volta ao Brasil, contei o fato ao meu amigo frei Betto e ele me ensinou que fôra, exatamente naquele local, há mais de 2.000 anos, onde Jesus chorou despedindo-se dos fiéis amigos.
Num dos últimos jantares que organizei em minha residência com a ajuda do Frei Betto, decidimos fazer a comilança a quatro mãos – ele como sempre tendo o apoio de grande cozinheira mineira, sua mãe, Maristela. Apaixonado que sou por peixe, e com os quais lido muito bem na cozinha, a celebração foi um sucesso. Na hora da despedida, a esposa de um grande amigo me presenteou na saída com um livrinho de bolso, com a recomendação de tê-lo sempre ao meu lado na cama, em casa ou no hospital. Sabendo que eu seria internado no dia seguinte, pediu para que eu sentasse numa poltrona num lugar reservado e recomendou que eu fechasse os olhos e mantivesse absoluto silêncio.
Sem pronunciar qualquer palavra, ela passeou suas mãos sobre o meu rosto, minha cabeça e ombros. Confesso que tenho crenças e dúvidas, mas nenhuma vocação mística. Digo isto para justificar o aparentemente injustificável: durante o seu ritual voltaram a escorrer as mesmas lágrimas do Jardim das Oliveiras.
Quando todos se foram, percebi que não conseguiria ler o livrinho, que ela me dera, pois estava escrito em caracteres hebraicos. Dentro dele, ela deixara uma oração a São Judas Tadeu, um lencinho levemente manchado de sangue e sua benção.
Nesta minha trajetória judaico-cristã, aprendi que uma benção não é alguma coisa que você dá ao outro, ela é, na realidade, um momento de encontro. Um encontro de almas que têm alguma afinidade, sem nunca entender o porquê.
9. O MEDO DA MORTE
Não tenho medo da morte porque sinto que vivi. Amei e fui amado. Construí minha obra. Deixei minha marca por onde passei e cheguei a um ponto em que já não preciso mais me preocupar com ela.
Não tenho medo da morte porque me sinto plenamente realizado com o que fiz da minha vida. Não a desperdicei em nenhum momento. Fiz sempre o melhor que pude. Vivi com absoluta integridade.
Muitas pessoas ao atingir a minha idade passam a viver suas vidas em função do temor à morte procurando recompensas em alguma outra vida. O simples viver de forma humana já não é a nossa recompensa? Se alguma pessoa vive e morre sem que ninguém se de conta será que ela realmente viveu? E se perguntarem a alguém o que fez da sua vida com todas as oportunidades que teve, é provável que ele responda: acumulei muito dinheiro, li muitos livros, fui a muitas festas e baladas, o que significaria isso no final? A vida de um ser realmente humano tem que ser muito mais que isto. É amar e ser amado. É saborear cada momento. Por que a última parte de nossa vida não pode ser a melhor? Por que não fechar com chave de ouro o livro de nossa vida?
10. OLHANDO A VIDA COM OUTROS OLHOS
Ao longo de nossa existência, acabamos influenciando as vidas de muito mais pessoas do que supomos, sobretudo porque não costumamos fazer uma listagem delas. Por outro lado, é curioso, se não trágico – como somos capazes de, aos poucos, ir esquecendo tantas pessoas que nos proporcionaram pequenas – porém fantásticas – experiências e alegrias ao longo de nossa vida.
Trabalhando há 17 anos com criança deficientes visuais aprendi que a nossa vida pode ser vista não apenas com os olhos. Ela pode ser vista com a mente, ou como nos ensinam as teorias ayurvédicas com um terceiro olho, que teríamos oculto em nossa caixa encefálica. Ou quem sabe ainda através da intuição (sexto sentido), como aprendi nos empreendimentos que criei. Mas ela só vai se revelar através daqueles que desenvolvam a capacidade de enxergar com o coração.
Das questões e dúvidas que fui colecionando na vida, a maioria já teve respostas satisfatórias. Confesso que não são de natureza psicológica, de auto-estima, de reconhecimento, de notoriedade, de sucesso. Nossa vida é um desafio constante que deve ser vivido dia-a-dia. Ela não precisa de grandes momentos, e sim de muitos, pequenos e diferentes momentos. Claro que todos nós trabalhamos pelo dinheiro, que nos permita ter uma vida cada vez melhor e mais farta. Talvez a mais importante e fundamental descoberta na vida da minha mulher e na minha foi a de quantas pessoas precisavam do nosso trabalho, do nosso conhecimento profissional, da nossa experiência com nossa filha cega. Quanto aprendemos com elas. É como nos ensina Gonzaguinha:
“Um homem se humilha, se castram os seus sonhos. Seu sonho é sua vida e sua vida o seu trabalho. Sem o seu trabalho, o homem não tem honra, sem a sua honra, se morre, se mata.”
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